ISSN 2179-1287
Número 18 | jan/fev/mar/abr 2016

Quem é o homossexual e que lugar ocupa na escola hoje?

Anderson Ferrari

 

Esta é uma pergunta atual e importante para a educação: “quem é o homossexual e que lugar ocupa na escola hoje?” Não é possível respondê-la sem considerar a inexistência de um homossexual típico e único nas escolas, assim como não é possível falar de uma só homossexualidade. Há uma infinidade de possibilidades de ser e estar nas homossexualidades, bem como nas escolas. Mas isso não diminui a importância e atualidade da questão.

Por um lado essa pergunta é importante porque amplia o sentido de educação e implica o trabalho dos professores e das professoras para além da transmissão de conteúdo que, muitas vezes, marca o cotidiano e preocupação na relação com os alunos e alunas e com o que acontece nas salas de aula.  Perguntar “quem é o homossexual?” e “que lugar ele ocupa?”, principalmente hoje em dia, significa assumir que as homossexualidades são construídas no contexto social, elas dizem de um processo de subjetivação que é histórico e cultural. Falar de educação, portanto, não se limita à transmissão de conhecimentos e conteúdos, mas presume processos de constituição de sujeitos, de meninos e meninas, de professores e professoras. Por tais motivos, essas perguntas devem estar presentes e rondar o olhar dos professores e professoras no seu fazer pedagógico e nas relações que estabelecem na sala de aula. Não me parece possível fugir desses questionamentos sob a pena de manter e perpetuar uma sociedade homofóbica e preconceituosa. O trabalho dos professores e professoras está para além dos conteúdos curriculares, ele também inclui a construção de sujeitos.

Por outro lado, a questão título também é importante porque recupera algo necessário quando discutimos sexualidades nas escolas, que é reconhecer a historicidade dos objetos e dos sujeitos. A perspectiva de análise histórica que está presente na pergunta “quem é o homossexual e que lugar ocupa na escola hoje?”, nos impõe a necessidade de respondê-la defendendo a importância de se investigar a construção histórica “disso” que chamamos “homossexualidades” e, por consequência, o que chamamos de “homossexuais”. Significa dizer que as homossexualidades, assim como os homossexuais, não são essências, não são “naturais” e tampouco a-históricos. Eles são construções discursivas, são o que dizemos deles, o que nos obriga a levar em consideração as suas condições de surgimento e de existência.

Por ocasião da “invenção” das homossexualidades, hoje, as escolas são diferentes daquelas existentes no século XIX. Assim, as homossexualidades e os homossexuais, hoje em dia, dialogam com continuidades e descontinuidades com os discursos que foram construindo um campo semântico destes objetos e sujeitos. Neste sentido, é importante olhar para o que acontece hoje em dia, mas é fundamental traçar diálogo com a história, para, partindo de questões levantadas no presente, problematizá-las, pensando o seu aparecimento numa determinada época para problematizar as continuidades e rupturas, construindo uma história do presente, que afeta a escola.

Nesta direção, o que pretendo ao responder essa questão é problematizar e questionar o que parecem ser “verdades” inquestionáveis, tais como o entendimento marcante do desejo na identificação, na classificação e na imposição da identidade homossexual. Não é o “simples” fato de sentir desejo por pessoas do mesmo sexo que marca a associação com as homossexualidades. Há diferentes filiações às homossexualidades. Sentir-se homossexual a partir da identificação do desejo é apenas uma delas. Portanto, recuperar a construção das homossexualidades é voltar para a História a fim de buscar entender como o homossexual torna-se “homossexual”, ou seja, até que ponto o que está sendo organizado hoje e define o homossexual e a homossexualidade depende desse passado e, em que medida, aqueles que não têm essas mesmas experiências, tornam-se similares.

Essência ou experiência, o que parece servir, no senso comum, para a identificação com uma dessas perspectivas é a expressão do desejo. Ou seja, a definição da homossexualidade está diretamente ligada ao desejo e, mais especificamente, ao objeto do desejo. Mais do que isso, a definição das homossexualidades faz parte de um processo que enquadramento que marca nossa sociedade. Nós somos uma sociedade do enquadramento. Os enquadramentos nos organizam. Neste sentido, as homossexualidades se relacionam com o enquadramento dos gêneros, que é um dos primeiros enquadramentos que nos organizam. Ao saber da gravidez, a mulher e o contexto ao seu redor acionam, imediatamente, o interesse e a curiosidade em torno do gênero desta criança que sequer nasceu. Saber se é menina ou menino não diz apenas do gênero, mas também da sexualidade. Ser menino significa ser heterossexual. Ninguém educa numa perspectiva homossexual. É o objeto de desejo deste menino que vai torna-lo “menino”, num certo embaralhamento entre gênero e sexualidade. Quando este menino direciona o seu desejo para o mesmo sexo, surge a necessidade de outro enquadramento, fazendo com que a sexualidade e, especificamente, a homossexualidade se torne mais forte, quase que expulsando o menino do gênero masculino e transformando-o “somente” em homossexual.

Isso não é de hoje. O século XIX foi marcado pela preocupação com a classificação do que é “anormal”. A sexualidade vai estar presente nesse domínio da anomalia, desde o seu início. Primeiro porque o campo geral da anomalia vai inaugurar a preocupação com a classificação e com o policiamento. E, segundo, porque serão identificados e apresentados variados casos particulares de anomalia, caracterizados como distúrbios sexuais. Pensando que as homossexualidades também foram construídas nesse contexto, parece difícil entendê-las sem levar em consideração a constituição desse domínio da anomalia.

As homossexualidades nascem, portanto, neste contexto, como um “problema”, como uma doença. Segundo Foucault, foi um médico húngaro que primeiro nomeou as pessoas como “homossexuais”, classificando de homossexualismo a “doença” que acometia aquelas pessoas que têm um desejo direcionado para pessoas do mesmo sexo. Quando se nomeiam essas formas de expressão não se trata apenas de listá-las ou excluí-las do real. Os mecanismos de poder que se inauguram estão mais ligados ao adestramento, à vigilância e à confissão do que é considerado “doença”, “penalidade”, trazendo para a discussão novos campos de conhecimentos dispostos a construírem discursos inesgotáveis e corretivos. Ainda hoje, essas preocupações com a identificação (e cada vez mais cedo), classificação, vigilância e correção estão presentes nas escolas, nas ações de professores e professoras no que diz respeito às homossexualidades. Propositalmente, estou utilizando homossexualidades no plural no intuito de chamar atenção para a impossibilidade de se falar em um “homossexual típico”. Não é possível falar em homossexualidade no singular. Existem diferentes e diversas possibilidades de ser homossexual.

Neste sentido, podemos falar que existem minimamente três tipos de homossexuais e de homossexualidades nas escolas. Um é aquele que é classificado pelos professores e professoras. Outro que é classificado pelos alunos e alunas e um terceiro que é classificado pelos próprios sujeitos que se sentem “homossexuais”, e que cada vez mais estão se assumindo nas escolas. Em todos eles, o que está em jogo é essa preocupação com o “outro” que marca nossa sociedade e que diz da classificação e vigilância com as sexualidades que estão presentes nas nossas ações nas escolas, como herdeiros da modernidade. Como os discursos das homossexualidades nos constituem, podemos dizer que olhar para as homossexualidades é absolutamente subjetivo. Para cada um ou uma há sinais no outro que nos conduzem às homossexualidades. Isso significa dizer que nas escolas não haverá nunca consenso sobre o que é ser homossexual. Cada um, professor ou professora, aluna ou aluno, terá modelos de homossexualidades que irão servir para vigiar, classificar e punir o outro, que classifica como homossexual.

Sendo assim, o homossexual de hoje ainda é o “personagem” construído pelos discursos médicos do século XIX, sendo atribuído a ele um passado, uma história, uma infância, um caráter, enfim, características que o marcam como uma personagem de natureza singular. Ainda é com essa visão do homossexual como personagem, capaz de ser identificado pela face e pelo corpo, como sendo um segredo que se trai, como algo que é do sujeito sem ter como fugir, que o senso comum e que as escolas estão trabalhando.

Voltando agora um pouco mais detalhadamente, aos três tipos de homossexuais que apontei anteriormente e que estão presentes nas escolas, quero me ater em cada um deles, utilizando-me de exemplos do que encontrei em pesquisas anteriores.

O primeiro “tipo” é aquele que é resultado do olhar dos professores e professoras. Atualmente tem chamado a atenção do nosso grupo de pesquisa (GESED- Grupo de Pesquisa e Estudo em Gênero, Sexualidades, Educação e Diversidade) a constante procura de professoras e professores no sentido de “ajudar” ou mesmo “resolver” um problema que identificaram nas escolas. A busca pelo grupo já denuncia um quadro de compreensão destas professoras e professores em torno da formação inicial. Identificam um “problema” na escola em que não se sentem preparadas para resolver. A ideia é de resolver associando o professor como aquele que tem que dar conta de tudo que acontece na sala de aula e que diz da constituição de sujeitos. Já que não se sentem “capacitadas” para resolver, voltam ao local em que identificam como o mais apropriado para buscar esta “capacitação” ou formação que não foi dada – a Universidade – local de construção de conhecimento. Apropriando-nos de um exemplo mais direto, fomos procurados por uma professora que dizia estar com um problema com um aluno de 5 anos que insistentemente (segundo ela) queria brincar só com as meninas, queria brincar só de casinha e de boneca e não se envolvia com as brincadeiras de bola como os outros meninos. Ao final do relato a professora concluía: “esse menino é homossexual, o que faço com ele?” Esse é um tipo presente nas escolas, ou seja, o homossexual que nasce do olhar das professoras e professores na pressa em classificar e enquadrar o “outro”, que foge daquilo que aprenderam como “típico” de ser homem e mulher, numa mistura entre gênero e sexualidade. O grupo quase sempre utiliza uma questão que nos parece importante para problematizar as homossexualidades: “mas aonde está a homossexualidade? Nele ou em você, professora?” É a homossexualidade que te habita que te possibilita transformar o outro em homossexual.

O segundo “tipo” é aquele que nasce entre os alunos e alunas. Este tipo associa o enquadramento das homossexualidades ao trabalho com as identidades e diferenças. Salas de aula e escolas são locais de disputa, de confronto e de negociação. As escolas não são lugares agradáveis para todos. Para algumas pessoas, esses lugares são verdadeiros “infernos na terra”, são locais de dor e medo. Crianças e adolescentes estão em disputa nas escolas, em disputa pela construção das identidades. Neste processo de afirmação das identidades está incluída a definição das diferenças. Não existe identidade sem diferença. Assim, quando um menino classifica o outro como homossexual, ele está construindo sua identidade como o diferente, como o “outro” que não é homossexual. Portanto, classificar o outro como homossexual é classificar a si mesmo como heterossexual. A questão é que as identidades quase sempre são entendidas como absolutas. Neste sentido, o menino classificado como homossexual deixa de ser o bom aluno, o bom filho e o bom amigo para ser transformado e, muitas vezes, se tornar somente “o” homossexual. A identidade de homossexual é absolutizada. Tanto no primeiro tipo – aquele que nasce dos professores e das professoras – quanto o segundo, o que surge da negociação das identidades entre os alunos e alunas, o que une esses dois tipos é a vinculação dos sentidos sociais das homossexualidades e dos homossexuais que nos constituem e que nos permitem olhar para o outro e acionar em si sentidos capazes de classificá-lo como homossexual.

O terceiro tipo é aquele, mais atual, e que cada vez é mais comum de se observar nas escolas, que diz de alunos e alunas que se autodenominam como homossexuais, num exercício de assumir-se com orgulho e coragem. Fruto das conquistas dos movimentos sociais, especialmente dos grupos LGBTT organizados em todo país, esses meninos e meninas estão mais seguros das suas possibilidades de ser ancorados em discursos de respeito e orgulho que foram sendo construídos desde a década de 80. Os grupos LGBTT organizam-se em torno da construção discursiva das homossexualidades a partir de dois investimentos. O primeiro é a desconstrução de identidades e discursos negativos que quase sempre ligam as homossexualidades a doenças e pecado e que diz desta desconstrução dos sentidos históricos ligados à medicina e à religião. O segundo diz do investimento na construção de imagens e discursos mais positivos das homossexualidades. Esses investimentos estão afetando as maneiras de olhar e viver as homossexualidades, introduzindo novos sentidos na sociedade e permitindo novas estéticas da existência.

Para encerrar é importante dizer que essas são apenas algumas das possibilidades mais facilmente encontradas nas escolas. De qualquer maneira é possível dizer ainda, que as homossexualidades estão cotidianamente presentes nas escolas seja como fato ou como assunto. Como fato, quando temos alguns alunos classificados como homossexuais nas salas de aula, seja pelos professores e professoras, seja por alunos e alunas ou mesmo que se autoclassificam como tais. Como assunto, quando não temos alunos e alunas classificados como homossexuais nas salas de aula, mas as homossexualidades insistem em aparecer nos discursos. Cotidianamente as homossexualidades são trazidas para as salas de aula como xingamento, agressão, desqualificação do outro, mantendo um sentido negativo das homossexualidades. Portanto, voltando à importância e atualidade da questão para o campo da Educação, quero ressaltar que dar lugar para esta questão é colocar sob suspeita nossas formas de pensar e agir. É assumir outra questão que me parece importante para o exercício da educação: “porque eu penso o que penso?”

 

Para saber mais:

GESED – Grupo de Pesquisa e estudo em Gênero, Sexualidades, Educação e Diversidade: Reune docentes da UFJF, do Colégio de Aplicação João XXIII, da rede pública de ensino de Juiz de Fora e região, além de estudantes de graduação e pós-graduação. Mais informações em: http://gesedufjf.wix.com/gesed


Anderson Ferrari
é doutor em Educação e professor da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). E-mail: aferrari13@globo.com

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