ISSN 2179-1287
Número 18 | jan/fev/mar/abr 2016

Possíveis reflexos das desigualdades de gênero no acesso das jovens às áreas das ciências: uma questão a ser estudada.

Sandra Unbehaum e Thais Gava

Este artigo tem o objetivo de compartilhar um problema de pesquisa: a sub-representação de mulheres em carreiras nas áreas das ciências exatas (matemática, física, química, estatística, computação, tecnologia e ciências naturais), e tem como fonte de argumento uma sistematização de informações realizada por nós, em 2015, para o Instituto Unibanco. Naquele momento, o objetivo foi o de mapear estudos, políticas e programas que tivessem como foco as questões de gênero, as ciências e o ensino médio. O mapeamento realizado não foi exaustivo, mas permitiu constatar a quase inexistência de estudos sobre diferenças e desigualdades entre meninas e meninos no que se refere ao campo disciplinar das ciências e das exatas no Brasil. Os sistemas de avaliação, na maioria dos casos, não consideram as disciplinas de Física, Química, Ciências Biológicas, limitando-se às disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática. Essa constatação reforçou nosso interesse em realizar um estudo (em curso) sobre os processos que influenciam as escolhas das jovens em relação à formação e carreira profissional. A pesquisa será realizada no município de São Paulo, em escolas do ensino médio, pois é neste momento em que as jovens decidem pela continuidade dos estudos, ingressando no ensino superior ou, eventualmente, interrompendo ali sua escolarização.

Sabemos que os processos de escolha de uma vida profissional sofrem influências diversas, das várias instituições (mídia, família, comunidade, escola), bem como de aspectos oriundos das condições sociais, culturais e afetivas. A superação das diferenças entre homens e mulheres na sociedade e vida profissional, em particular, requer o incentivo a estudos que possam focalizar os diversos aspectos da divisão sexual do trabalho que se estabelece na mais tenra idade – na definição de tarefas domésticas – até as diferenças que se determinam ao longo da experiência escolar e ocupacional, incluindo as posições ocupadas nas mais altas hierarquias profissionais, como afirmam a filósofa brasileira Helena Hirata e a socióloga francesa Danièle Kergoat. Não à toa o Observatório para a Igualdade de Gênero no texto introdutório para a área temática Educação para a Igualdade e Cidadania destaca que:

O sistema de ensino tem um importante papel na sociedade, pois é um dos principais espaços de socialização, formação e disseminação de valores sociais. Se, por um lado, a escola pode contribuir para a formação de sujeitos críticos e reflexivos, ajudando a superar preconceitos e opressões, por outro, ela também pode reforçar desigualdades, como a divisão sexual do conhecimento, e reforçar estereótipos e preconceitos.

As pesquisas sobre a educação científica estão focadas primeiramente no ensino superior e com algumas experiências no ensino fundamental. O ensino médio, momento em que as adolescentes e jovens estão voltadas para as escolhas profissionais, tem poucas pesquisas e estudos que considerem as categorias que contribuem fortemente para o preconceito, a construção de estereótipos e a consequente discriminação e desigualdade em razão do gênero e/ou da raça/etnia. Essas questões somam-se aos princípios apresentados na vigente Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), que descreve a educação como um direito baseado em valores como equidade no acesso e na permanência, liberdade de ensinar e aprender, pluralismo de ideias e concepções pedagógicas, gratuidade, valorização dos profissionais da educação, gestão democrática e garantia de padrão de qualidade. Não se pode negar que desde o final do século XX, o Brasil vivencia um período de melhoria significativa nos indicadores que medem as oportunidades de acesso e permanência na Educação Básica, como demonstrou a então Secretária da Educação Básica, Maria do Pilar Silva, na apresentação “A Educação Básica, avanços e desafios”, em 2010. Isto trouxe, como consequência, a diminuição do número de analfabetos, a universalização de acesso de crianças ao ensino fundamental e um aumento progressivo do número médio de anos bem sucedidos de estudo da população, nas diferentes faixas etárias e em todas as regiões do País. Mas sabe-se, por outro lado, que é necessário olhar para o cenário da educação brasileira para além da universalização das políticas de acesso. É fundamental refletir sobre a qualidade da educação oferecida e a necessidade da materialização dos resultados da escolarização na vida das pessoas.

Um dos níveis de ensino de constante interesse e preocupação é o do ensino médio, por sua importância na ressignificação para a vida de jovens dos mais diferentes contextos do país. Além da última etapa da educação básica, é no ensino médio que são colocadas as expectativas referentes às ferramentas para o desenvolvimento da autonomia intelectual e pensamento crítico, mas também é visada a entrada no mundo do trabalho e ou a continuidade dos estudos para o ingresso no ensino superior. Neste sentido, o ensino médio representa um importante desafio para a sociedade, pois ao mesmo tempo em que demanda políticas de universalização que garantam o acesso e a permanência, com qualidade, a um maior número de pessoas, também coloca a necessidade de um olhar apurado para demandas de grupos específicos, questões estas que requerem respostas que muitas vezes extrapolam o ambiente escolar, mas que impactam diretamente a vivência de estudantes no seu cotidiano escolar.

Este é o caso das discussões referentes à equidade de gênero na educação nas etapas da educação básica. Os pesquisadores Kaizô Iwakami Beltrão e José Eustáquio Diniz Alves, no artigo A reversão do hiato de gênero na educação brasileira no século XX”, colocam que desde meados do século XX há um investimento significativo para a reversão no “hiato de gênero” na educação brasileira, ou seja, uma série de políticas sociais foi adotada a ponto das mulheres ultrapassarem os homens em termos de anos médios de escolaridade. Todavia, mesmo tendo avançado consideravelmente na inclusão delas no sistema de educação como um todo, ainda é possível observar que as questões relacionadas à dinâmica de gênero incidem diretamente numa trajetória profissional desigual quando comparadas aos homens. Neste sentido, pode-se dizer que houve um aumento no acesso em todos os níveis educacionais tanto para mulheres e homens, mas isso não pode ser interpretado como uma superação das desigualdades de gênero na Educação, pois as mulheres continuam concentradas em cursos e carreiras consideradas socialmente como “femininas”, com menor valorização econômica e pouco reconhecimento social.

Esse dado de realidade tem estimulado ações e politicas de incentivo para o enfrentamento dessa situação, tais como a elaboração de projetos e prêmios que pudessem dar visibilidade e estimular o ingresso de mais mulheres em cursos e carreiras alocadas nas áreas das exatas. Mas tão importante quanto promover a entrada delas nesta área é entender os processos que levam à produção deste fato. Os estudos de gênero discutem a construção social e histórica das desigualdades, e são vários os espaços de socialização que as produzem, mas também as transformam: família, escola, instituições religiosas e políticas entre outras. Estudiosas, como Fúlvia Rosemberg, Daniela Finco, Helena Altmann, Marina Mariano e Liane Uchoga, têm se dedicado a pesquisar qual o papel da instituição escolar na manutenção ou rompimento dessas inequidades que limitam o desenvolvimento de potencialidades em homens e mulheres. Essas pesquisadoras argumentam que já na educação infantil determinadas práticas educativas e atitudes de professoras e professores podem influenciar expectativas em relação aos potenciais e habilidades de meninas e de meninos. A psicóloga americana Elizabeth Gunderson, apresenta uma extensa revisão de estudos norte-americanos sobre o papel da família e dos professores de escolas de ensino fundamental nas relações de gênero e atitudes de estudantes com relação à Matemática. Resumidamente, ela demonstra que as famílias e professores têm expectativas diferentes para homens e mulheres com relação à matemática e isso pode influenciar a atitude e desempenho de crianças com relação à disciplina.

Acredita-se que essa dinâmica siga e ganhe força ao longo da trajetória escolar, sobretudo no momento das escolhas profissionais que tendem a ocorrer ao final do ensino médio. Neste contexto, questiona-se: em que medida determinadas escolhas podem estar sendo feitas muito antes desse nível, a partir de vieses de gênero? Qual a contribuição das instituições escolares nessas escolhas?

A historiadora e educadora brasileira Marília Carvalho, em seu estudo “Teses e dissertações sobre gênero e desempenho escolar no Brasil (1993 – 2007): um estado da arte” (2012), faz a ressalva sobre a não neutralidade da instituição escolar sobre a questão de gênero e coloca a necessidade de se ampliar os estudos sobre a complexidade dos processos de socialização. Ela argumenta que:

uma melhor compreensão das diferenças de desempenho escolar entre os sexos passa, principalmente, por um aprofundamento teórico que permita uma apreensão mais complexa e não hierárquica das relações de gênero no campo simbólico, para além das relações entre homens e mulheres. Uma leitura que possa deixar de avaliar as relações de gênero como negativas ou positivas, sem estabelecer conexões diretas com o sexo dos agentes, o que permite, ao mesmo tempo, ir além dos contextos e pensar a cultura escolar de forma mais geral.

Muitas são as perguntas e com elas um campo de estudo se abre para o desenvolvimento de pesquisas e intervenções que promovam a superação das diferenças entre homens e mulheres. Nesse processo, um passo importante é a escuta das adolescentes sobre as questões de gênero vivenciadas no ensino médio, bem como estudos sobre as práticas pedagógicas nos diferentes níveis de ensino e até mesmo a compreensão de que há um problema não só de pesquisa, mas social, com significativo impacto na perpetuação de desigualdades históricas.

 

Para saber mais:

AÇÃO EDUCATIVA (Coord.); CARREIRA, D. (Coord.) et. al. Informe Brasil – Gênero e Educação. São Paulo: Ação Educativa, 2011. Elaborado para a Campanha Latino Americana por uma Educação Não Sexista e Anti Discriminatória.

ALTMANN, Helena; MARIANO, Marina; UCHOGA, Liane. Corpo e movimento: produzindo diferenças de gênero na educação infantil. Pensar a Prática, v. 15, n. 2, 2013.

BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil. Brasília, DF, 23 dez. 1996. Seção 1, p. 27833-27841.

BELTRÃO, Kaizô Iwakami; ALVES, José Eustáquio Diniz. A reversão do hiato de gênero na educação brasileira no século XX. Cad. Pesqui.,  São Paulo,  v. 39, n. 136, p. 125-156, Apr.  2009 .

CARVALHO, Marília Pinto de. Teses e dissertações sobre gênero e desempenho escolar no Brasil (1993 – 2007): um estado da arte. Pro-Posições,  Campinas,  v. 23, n. 1, p. 147-162, Apr.  2012 .

FINCO, Daniela. Relações de gênero nas brincadeiras de meninos e meninas na educação infantil. In: Pro-posições. Campinas: v. 14, n. 3 (42), set./dez. 2003. p. 89-101.

GUNDERSON, Elizabeth et. al. The Role of Parents and Teachers in the Development of Gender-Related Math Attitudes. In: Sex Roles n 66, 2012, p. 153–166.

HIRATA, Helena; KERGOAT, Danièle. Novas configurações da divisão sexual do trabalho. Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, p. 595-609, set./dez. 2007.

MADSEN, Nina. A construção da agenda de gênero no Sistema Educacional Brasileiro (1996 – 2007). 2008. 199 f. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Departamento de Sociologia, Universidade de Brasília/UNB, Brasília. 2008.

OBSERVATÓRIO BRASIL DE IGUALDADE DE GÊNERO. Educação para Igualdade de Gênero. Disponível em: <http://www.observatoriodegenero.gov.br/menu/areas-tematicas/educacao>.

ROSEMBERG, Fúlvia. Educação infantil: classe, raça e gênero. Cadernos de Pesquisa, n.96, p. 58- 65, fev. 1996.

SILVA, Pilar .L. A Educação Básica, Avanços e Desafios (apresentação de power point), Brasília, 2010. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=9260-educacao-basica-brasil-avancos-desafios-pdf&Itemid=30192>.


Sandra Unbehaum
é doutora em Educação: Currículo pela PUC/SP, socióloga pesquisadora do Grupo de Pesquisa Gênero, Raça e Direitos Humanos da Fundação Carlos Chagas.
Thais Gava
é mestra em que a mestra em Saúde Coletiva pela Unifesp/SP. Atua também como psicóloga assistente de pesquisa e participante do Grupo de Pesquisa Gênero, Raça e Direitos Humanos da Fundação Carlos Chagas.

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