ISSN 2179-1287
Número 18 | jan/fev/mar/abr 2016

É possível subverter as normas de gênero e de sexualidade na formação docente?

“Quando eu comecei o curso, não sabia ao certo se ia conseguir ficar ou não […], contudo resisti, continuei e não me arrependi de ter chegado até o fim”!

Marcos Lopes de Souza

Em minha trajetória enquanto professor e pesquisador, tenho escutado das/os colegas, professoras/es da educação básica, que elas/eles não foram preparadas/os para trabalhar com gênero e sexualidade na escola. É recorrente o argumento de que não escutam sobre essas questões durante seu percurso formativo. Gostaria de suspeitar desse pensamento e defender o posicionamento de que desde crianças nos são ensinadas verdades relacionadas aos gêneros e às sexualidades e aprendemos tão bem os preceitos que muito de como pensamos, falamos e agimos no tocante a essas temáticas vemos como algo da “natureza humana” ou uma essência, duvidando de uma possível construção sociocultural. Neste artigo, apresento e problematizo algumas vivências que tive enquanto formador de docentes para a educação básica.

Em uma de minhas turmas de formação de professores de Biologia, uma docente que já exercia o magistério disse, em uma de minhas aulas, que um de seus alunos, um garoto de 11 anos, adorava pintar os desenhos com lápis cor de rosa e que isso a incomodava tanto que ela o escondia dele. Quando ela me trouxe esse relato, eu a questionei: Mas porque você se perturba com isso? Qual o problema em um menino gostar da cor rosa? De imediato, ela respondeu que tinha medo dele “virar” uma menina ou que isso o “estimulasse” a ser gay. Nesse momento eu debati com a turma o quanto as normatizações de gênero e sexualidade orientam os nossos pensamentos e atitudes. Por que esconder um lápis cor de rosa de um garoto? Por que entendemos que a cor rosa é somente para as meninas? Quem nos ensinou isso e por que reiteramos essas ideias?

Nossa cultura nos educou a enquadrar as pessoas em, exclusivamente, duas possibilidades de gênero: ou se é homem ou mulher e, mais do que isso, há coisas que são apenas de homens e outras unicamente de mulheres, reiterando um olhar dicotômico. Fomos tão bem formados nessas padronizações que estranhamos ao vermos uma garota jogando futebol e andando de esqueite, por exemplo, ou nos deparamos com um garoto brincando de casinha ou se maquiando. Os espaços sociais, inclusive os escolares, ainda estão muito demarcados e qualquer possibilidade de trânsito é censurada ou minada. Quando alguém transgride aquilo que é visto como normal, é nomeado/a de excêntrico e o medo de “incentivar” ou consentir essas subversões ainda captura muitos/as educadores/as, como foi o caso trazido pela professora.

Outro docente da mesma turma referida anteriormente me disse: “Professor, isso me incomoda muito. Eu não conseguiria jamais dar uma boneca para um menino”! Pergunto: Por que ele vê como constrangimento presentear um garoto com uma boneca? Talvez porque ao fazer isso ele estaria rompendo com os processos normativos de gênero, burlando as vigilâncias e produzindo outras verdades. Neste momento vem em minha memória o curta-metragem Vestido Novo do diretor e roteirista espanhol Sergi Pérez, que conta a história do garoto Mário que, no dia do Carnaval, vai à escola com um vestido rosa e com as unhas pintadas e o quanto isso provoca vários (des)confortos na comunidade escolar. Este artefato cultural é interessante porque nos convida a suspeitar dos modelos que aprendemos sobre os gêneros e as sexualidades, potencializando outras vivências formativas para além daquelas que muitos/as educadores/as já se depararam.

Recordo-me de outra professora, em um dos cursos de formação continuada, que relatou a história de uma colega também educadora que ao perceber os escapes do filho em relação às normas de gênero, buscou maneiras de tentar “recuperá-lo”. Para isso, ela inclusive o colocou em aulas de judô e de futebol para que ele fosse “estimulado” a seguir o modelo de masculinidade hegemônica construído pela nossa cultura. Em outras palavras, para a professora, ao conviver nesses lugares, ele aprenderia, de fato, a “ser homem”, já que as possíveis “marcas” daquilo que é nomeado como “feminino” estariam desviando-o do caminho tido como “natural”.

Esta insistência pelo controle e a regulação também ocorre quando há fugas ao modelo heterossexual presente em nossa sociedade. Em diferentes momentos dos encontros que tive com professoras/es nos cursos de formação inicial e continuada também ouvi relatos em que elas/eles alegaram não rejeitar quem se identificasse com “outras” expressões da sexualidade, porém questionavam os gays ditos “afeminados” e as lésbicas nomeadas “masculinizadas”.

É recorrente, no pensamento de várias/os professoras/es a rejeição aos gays vistos como “espalhafatosos” ou “frescos”. A aversão aos chamados “trejeitos” nos mostra o quanto nossa sociedade se pauta na ordem social, cultural e política heterossexual, não reconhecendo as/os dissidentes de gênero e de sexualidade e querendo a qualquer custo e, às vezes, compulsoriamente, que os corpos se adequem às normas, excluindo toda e qualquer forma de não conformidade aos padrões. Há ainda, por parte de muitas/os educadoras/es, a preocupação em “corrigir” aquelas e aqueles que desviam dos enquadramentos. Já ouvi frases como: “Apague o quadro que nem homem”!

A suposta “aceitação” do gay, por exemplo, se dá muitas vezes, quando este segue a perspectiva heteronormativa, ou seja, quando se “encaixa” no perfil de “discreto”, não “dando pinta” e negando toda e qualquer marca daquilo que é compreendido enquanto feminino ou que “denuncie” que ele seja homossexual. Não é por acaso que as pessoas que se identificam como trans são as mais atingidas pela violência contra as chamadas minorias sexuais.

Essas aprendizagens construídas por muitos/as docentes em sua trajetória de vida nos dá pistas de que a formação das/os professoras/es ainda tem reiterado esses ensinamentos, sendo poucos os momentos em que suspeitamos ou desestabilizamos muitas dessas verdades. Nos currículos dos cursos de formação inicial docente, muitas das pesquisas já realizadas nos mostram que essas questões se expressam de maneira tímida e eventual, sendo poucas vezes considerados como conhecimentos pertinentes ao trabalho docente. Geralmente, quando se dialoga sobre gênero e sexualidades, isso se dá em disciplinas optativas em alguns cursos de graduação e por iniciativas audaciosas e arriscadas de professoras/es universitárias/os que desenvolvem trabalhos de ensino, pesquisa e extensão com essas temáticas.

Destaco aqui também os projetos de extensão sobre formação docente, gênero e sexualidade realizados por muitas universidades, inclusive a que eu leciono. De alguma maneira esses espaços têm contribuído para mobilizar e provocar as/os docentes sobre a importância dos debates sobre gênero e sexualidade na escola. São muitas as inquietações que movem as/os docentes para o envolvimento nesses cursos, por exemplo, a busca por respostas a situações vivenciadas em seus espaços de socialização como a família; a necessidade de saber lidar com as discriminações no espaço escolar, em especial, às pessoas que se identificam como LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e intersexuais) e a ampliação dos conhecimentos específicos sobre gênero e sexualidade. Ressalto o quão é árduo para muitas/os professoras/es se envolverem nesse debate, inclusive porque não são raros os momentos em que são orientadas/os a abandonarem os cursos, seja por colegas de trabalho, amigos(as) ou pela própria família.

Em um dos momentos formativos de um desses cursos que coordenei foi trazido à tona a proposta de produção de um material didático, pelo Ministério da Educação, que auxiliasse a prática pedagógica das/os professoras/as, o nomeado kit anti-homofobia. Os três vídeos do kit divulgados na internet, Probabilidade, Torpedo e Encontrando Bianca geraram uma reação conservadora a esta iniciativa e alguns grupos fundamentalistas produziram um pânico social em torno deste material. Enfatizou-se o discurso de que o kit “incitaria” as crianças a serem gays, lésbicas ou transgêneras, ou então de que estaríamos fazendo “propaganda” de expressões de gênero e sexualidade, como se o fato de se falar sobre diversidade de gênero e sexual “transformasse” as pessoas em isso e/ou aquilo, além do que, desejando ou não, a escola continuamente (re)produz discursos sobre gênero e sexualidades, geralmente, ancorados na perspectiva heteronormativa.

O conflito foi intenso e, infelizmente, fomos derrotados quando se decidiu suspender a produção do kit. Uma das professoras participantes do curso relatou que soube de uma situação em São Paulo em que a diretora de uma escola recebeu outro material de apoio às discussões sobre gênero e sexualidade e, antes mesmo de analisar o material, rasgou os livros e quebrou todos os DVDs. Penso o quanto o discurso de ódio produzido pelas perspectivas normativas e normalizadoras é capaz de causar reações como a dessa diretora que nem ao menos se permitiu conhecer o material que havia recebido. Que ojeriza é essa que a faz agir dessa forma?

Para finalizar, mas sem colocar um ponto final, considero necessário também apostar nesses espaços formativos como locais de escapes, fugas e de novas construções subjetivas, como foi o caso de uma das professoras que, ao final de uma das turmas de formação continuada, nos relatou o quanto o curso a fez revisitar suas perspectivas. Nos seus dizeres: “Quando eu comecei o curso, não sabia ao certo se ia conseguir ficar ou não. Várias vezes tive o desejo de não retornar mais porque as discussões sobre sexualidade e prazer mexiam muito comigo, contudo resisti, continuei e não me arrependi de ter chegado até o fim. Eu tinha muitos preconceitos e não sabia se ia dar conta. Eu tinha um colega meu na faculdade que ele sempre foi gay assumido e eu não conseguia chegar perto dele e várias vezes deixei de sentar ao seu lado porque ele era homossexual. Hoje eu sou outra pessoa, mas ainda tenho de aprender mais…”. Muitas vezes somos capturados pelos discursos reguladores dos gêneros e das sexualidades sem nos darmos conta de que estamos reiterando processos discriminatórios e não só causando dor e sofrimento nas outras pessoas, mas em nós mesmos/as. A experiência construída por esta professora no curso a possibilitou dar um passo para trás, se rever, questionar seus pressupostos e atitudes e a voltar para si mesma de outra maneira, como ela mesma disse: Hoje eu sou outra pessoa. Talvez, esse seja um de nossos desafios enquanto educadores/as: colocarmos-nos à prova, nos arriscarmos ao diferente, nos aventurarmos por caminhos até então (des)conhecidos.

 

Para saber mais:

ALTMANN, H. Diversidade sexual e educação: desafios para a formação docente. Sexualidad, Salud y Sociedad – Revista Latinoamericana, n. 13, p. 69-82, abr. 2013.

BORGES, Z. N.; MEYER, D. E. Limites e possibilidades de uma ação educativa na redução da vulnerabilidade à violência e à homofobia. Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v. 16, n. 58, p. 59-76, jan./mar. 2008.

FERRARI, A. FRANCO, E. “Lidando com as homossexualidades” – a formação de professores em debate. Instrumento: R. Est. Pesq. Educ. Juiz de Fora, v. 12, n. 2, p. 9-20, jul./dez. 2010.

LARROSA, J. Tremores: escritos sobre experiência. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2014.

LOURO, G. L. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.

SOUZA, M. L. Partilhando uma experiência de ensino sobre gênero e sexualidade em um curso de formação de professores de Ciências e Biologia. Revista de la Facultad de Ciencia y Tecnologia, n. extraordinario, p. 278-284, 2014.


Marcos Lopes de Souza
é professor titular do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia campus de Jequié-BA e coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em Gênero e Sexualidade da UESB.

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